Escrito com Gabriela Dama e Breno Guethi

O ano é 1932 e a mãe do nova-iorquino Richard Hollingshead Jr., está acima do peso e já não cabe nas cadeiras das salas de exibição do cinema. O jovem, que na época trabalhava como gerente de vendas na loja de autopeças do pai, teve uma ideia: usando um projetor Kodak 1928 e uma lona amarrada entre duas árvores como tela, criou uma espécie de cinema ao ar livre onde os convidados assistiam os filmes das confortáveis cadeiras dos seus automóveis (Cine Autorama, G1).

Experiências parecidas já ocorriam informalmente em outros países. Em Las Cruces no México, por exemplo, o Cinema Guadalupe já reservava um espaço para namorados assistirem filmes antigos dos seus veículos (Cinema de Buteco). Porém, foi Hollingshead quem obteve a patente para a ideia em maio de 1932 e — com dinheiro investido pelo seu primo —começou a construção do Automobile Movie Theatre, inaugurado em junho do ano seguinte. O título no letreiro dizia “Teatro Drive-In — O Primeiro Cinema do Mundo Onde Você Senta no Carro e Assiste Filmes”. A entrada custava 25 cents de dólar. Nascia o conceito de drive-In.

Camden Drive-In, Cinema Treasures
Camden Drive-In, Cinema Treasures
Camden Drive-In, Cinema Treasures

No seu auge durante os anos 60, os Estados Unidos sozinho contava com mais de 4 mil cinemas drive-in. Este tipo de atividade se tornou um ícone do american way of life, representado em clássicos como Twister, Grease e Cinema Paradiso.

John Travolta em Grease, Teléfilm

O Brasil também teve sua moda de drive-ins, porém em menor número (talvez por conta do menor número de habitantes com veículos). Hoje nossa pesquisa identificou apenas um drive-in em funcionamento pré-pandemia:o resiliente Cine Drive-In de Brasília, inaugurado em 1973, que hoje comporta 500 carros e tem a maior tela de cinema do País (Cinema de Buteco).

O Retorno

Este artigo resume a inesperada tendência de retorno dos drive-ins na época do COVID. Nossa pesquisa indica que este é o primeiro tipo de evento presencial que será aceito no mundo nos próximos meses. Abaixo trago um resumo das primeiras iniciativas no Brasil e no mundo, bem como os principais prós e contras da iniciativa.

Há Algo de Novo no Reino da Dinamarca

A ideia veio dos escandinavos. No nosso último artigo — Reabrindo o Mercado de Eventos — mostramos como na Dinamarca, o cantor Mads Langer vendeu 500 ingressos na cidade de Aarhus em um dos primeiros experimentos do tipo ainda no início de abril.

Mads Langer em Aarhus

A primeira iniciativa, no entanto, parece ter vindo da banda norueguesa de hip hop, Klovner I Kamp, que iniciou a tendência fazendo um show na cidade de Lillestrøm para 200 carros com até 5 fãs cada (G1, ScandinavianWay). O músico Aslak Hartberg, com mais de 25 anos de carreira, descreveu a experiência como “estranha” e “mágica”. O clube de futebol Lillestrøm SK, já anunciou um festival no mesmo local para relembrar a conquista da Copa da Noruega, que ocorreu no sábado passado (16/5). Muitos outros países já se movimentam na mesma direção em diversos formatos, inclusive uma “disco rave” na Alemanha que ocorreu durante três noites seguidas.

Perfil de Trond Kjørlaug no show de Klovner I Kamp, G1

Vamos ver nas próximas semanas diversas arenas sub-utilizadas se readaptando para dar espaço para este tipo de evento. Os EUA possui mais de 5.000 aeroportos comerciais por onde passaram menos de 200.000 pessoas no último mês (Business Insider). O aeroporto de Vilnius, na Lituânia, abriu a longa pista de pousos que chamaram de “Aerocinema” (Seu Dinheiro). Segundo o “El Observador”, o Aeroporto Internacional de Carrasco, próximo à capital Montevidéu, também vai transformar seu espaço em um cinema drive-in com uma tela de 16 metros de altura. O aeroporto de Stuttgart, na Alemanha, performa uma variação interessante do gênero, onde utiliza as suas vazias áreas de check-in para fazer “micro-shows” para um único espectador (Business Insider). As apresentações são usadas para coletar doações e podem ser transmitidas ao vivo.

A one-on-one concert at Stuttgart Airport. Sebastian Gollnow/picture alliance/Getty
Fotos: Vilnius de Andrius Sytas/Reuters e Stuttgart de Sebastian Gollnow

Até então não tivemos relatos de incidentes decorridos deste novo advento de drive-ins. “Se os carros mantiverem um espaço pequeno do vidro aberto, para que haja circulação de ar, as eventuais partículas de aerossol não conseguem entrar”, afirma André Ribas, epidemiologista da Faculdade São Leopoldo Mandic em entrevista para o G1. Os relatos de autoridades também foram positivos até o momento: “não houve incidentes, e as pessoas respeitaram a regra de não abrir nem sair de seus veículos” reporta a polícia de Lillestrøm.

Drive-In no Brasil

No Brasil, a Party Industry de André Barros, anuncia o LoveCine, que procura resgatar o espírito nostálgico do gênero na Zona Oeste do Rio de Janeiro no final do mês de maio. O criador das labels Zeh Pretim e Camarote Allegria planeja três sessões às sextas e sábados, e duas às quintas e domingos. Cada experiência terá a duração de quatro horas e, além da exibição de filmes, contará com shows e apresentações de DJs. Na Barra da Tijuca, a Cidade das Artes também irá inaugurar seu drive-in até o final de maio. Já a Dream Factory, produtora de grandes eventos como a Maratona do Rio e o Rio Mountreux Jazz Festival, planeja construir “Dream Parks” em oito cidades brasileiras. Segundo Claudio Romano, o CEO da empresa, o projeto é uma ponte entre o momento de reclusão atual e a “nova vida normal” (VejaRio) e, quando construído, será a maior rede de drive-ins do mundo (O Globo).

Em São Paulo, na Praia Grande no litoral paulista, começou a funcionar o Cine Drive-In — projeto criado pela exibidora Cinesystem e o Litoral Plaza Shopping (G1). O Allianz Parque, mais conhecido como o “Estádio do Palmeiras” também já anuncia seu projeto “Arena Sessions” que deve ser inaugurado nos próximos dois meses (Exame). Outros estados se preparam para seguir a tendência: a produtora BLR, no Piauí, já idealiza o projeto “De Dentro do Carro”. Abaixo compilamos uma lista das principais iniciativas identificadas no país.

Lista de Drive-In’s

(atualizada em 15/05/2020)

Rio de Janeiro

  • Dream Park, presente em estacionamentos de shoppings de oito capitais do Brasil, a partir de julho.
  • Cidade das Artes, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro/RJ, inauguração até o fim de maio. O ingresso será cobrado por carro.
  • LoveCine Drive-In, Jeunesse Arena, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro/RJ, funcionará de 28 de maio a 28 de junho. Preço dos ingressos: R$100 por carro.

São Paulo

  • Cine Drive-In, Praia Grande/SP, já aberto com sessões todos os dias. Preço dos ingressos: R$15 por pessoa.
  • Arena Sessions, Allianz Parque, São Paulo/SP, inauguração prevista entre maio e junho. Preço dos ingressos: R$95 — R$150 por carro.
  • Cine Autorama, São Paulo/SP, já em funcionamento e a produtora cultural Brazucah pretende transformar o projeto em referência nessa retomada no país.

Outras Cidades

  • Cine Drive-In, Brasília/DF, já em funcionamento. Preço dos ingressos: de 2ª a 5ª feira — inteira: R$ 28,00 / meia: R$ 14,00, de 6ª a domingo e feriados — inteira: R$ 30,00 / meia: R$ 15,00.
  • Circo Fantástico, Santa Maria/RS, o 1º espetáculo drive-in aconteceu no dia 15 de maio. Preço dos ingressos: R$50 por veículo.
  • Sesc Drive-In, Cuiabá/MT, inaugurado dia 15 de maio e as sessões estarão liberadas para todo o público. Ingressos gratuitos aqui.
  • Drive-In Festival, Uberaba/MG, inauguração em breve. Ingressos gratuitos, mas tem que levar 2kg de alimento não perecível (por pessoa no carro).
  • Drive-In Restaurante Madalosso, Curitiba/PR, inauguração em breve. Ingressos gratuitos, porém os clientes vão poder colaborar com uma campanha solidária.
  • Festival Cine PE 2020, Recife/PE, deve acontecer entre 24 a 30 de agosto.
  • Circo Khronos, Uberaba/MG, proposta em fase de aprovação junto à administração municipal.
  • GNC Cinemas, Porto Alegre/RS, com salas nos shoppings Praia de Belas, Moinhos e Iguatemi, a rede está avaliando a possibilidade de promover um cinema drive-in em Porto Alegre.

Reações

Apesar da tendência, o movimento encontra considerável resistência. Algumas das controvérsias levantadas envolvem sua viabilidade econômica, segurança e atratividade ao público devido ao contato social limitado entre os participantes. Estou longe de achar que o drive-in é a panaceia do mercado de entretenimento. Pelo contrário, ele possibilita um retorno modesto comparado ao auge das multidões em grandes eventos.

Porém, como empreendedor, também sei que nada inovador funciona bem na sua primeira versão. Eu lembro da primeira vez que ouvi alguém descrevendo o Uber em conversa: “você chama um motorista em um aplicativo e entra no carro com um estranho”. Ou ainda, na primeira vez em que ouvi falar do AirBnB, uma “plataforma que permite que pessoas desconhecidas fiquem na sua casa”. Também lembro das inúmeras vezes que me disseram que os brasileiros jamais iriam comprar ingressos online no início da Ingresse: “as pessoas gostam de tocar no ingresso e guardar como lembrança”. Inúmeros desafios e adaptações no formato serão necessários. É exatamente esse o trabalho do empreendedor — agora é hora de pensar fora da caixa (e de dentro do carro!).

Show do Grupo Norueguês Klovner I Kamp

Viabilidade Econômica

Os drive-ins perderam espaço para os cinemas tradicionais pelos seguintes motivos: (1) eles só podem funcionar à noite, portanto conseguem exibir bem menos sessões; (2) o clima em países temperados faz com que seja frio demais ficar do lado de fora em determinadas épocas do ano; e (3) salas de cinema conseguem comportar mais pessoas por metro quadrado, trazendo retorno mais rápido no aluguel.

Mesmo com todas essas desvantagens, o appeal dos drive-ins nunca desapareceu nos EUA. Antes da pandemia ainda existiam 305 drive-ins de acordo com a United Drive-In Theatre Owners Association e, segundo o New York Times, este tipo de estabelecimento vinha mostrando já sinais de retorno em iniciativas retrô como The Show Boat Drive-In, 99W Drive-In e o Blue Starlite em Austin. Enquanto isso, em iniciativa mais mainstream, Eustis na Flórida, vinha se preparando para construir o maior drive-in do mundo que incluirá uma área de camping. Michael Rapino, CEO da Live Nation, acaba de anunciar uma série de shows no formato e afirmou semana passada em conferência com os investidores que “consegue fazer a conta fechar” (Bloomberg)

Rendering do Projeto Lighthouse 5, O Maior Drive-in do Mundo

Durante a época do COVID, quando toda a indústria do entretenimento está parada, a solução ganha nova força, não somente para filmes, mas para todo literalmente tipo de conteúdo durante o dia. A Bloomberg reporta desde missas religiosas em Seoul até clubes de strip tease em Portland sendo convertidas neste formato.

Muitas cidades no Brasil, contam com climas mais quentes sem invernos rigorosos durante a maior parte do tempo. Além disso, temos uma área enorme e menor densidade geográfica que a maioria dos países europeus ou asiáticos, colocando o Brasil em vantagem quanto a solução.

Sabemos, no entanto, que grande parte da população brasileira não possui automóveis (diferente dos EUA) e que é tendência crescente entre millennials não adquiri-los. A solução para esse problema, é claro, é a “economia de serviços”.

Além do mais, a demanda reprimida por eventos sociais nesse momento é enorme. Em pesquisa com a nossa base de usuários, 80% da base — usuários que são ávidos por festas e shows ao vivo — se mostraram interessados em participar de eventos no formato drive-in. A rave realizada pelo clube “Index” na Alemanha retrata isso: o evento que seria, tradicionalmente dançante, esgotou ingressos para todos os seus três dias, mesmo com as pessoas dentro dos carros. Em Los Angeles, a produtora Celia Hollander após ter organizado um dos primeiros drive-ins na região comenta: “eu tinha tido a ideia antes (do COVID), mas eu sentia que o isolamento social era contra aquilo que eu valorizava em shows […] Agora isso é a coisa mais social que fiz essa semana”, ironiza. As pessoas “repetiam para mim o quanto elas precisavam disso” diz Ben Ballinger, cantor e compositor de música folk que realizou um show drive in em Austin, Texas (Bloomberg)

(Bloomberg).

Drive-In Rave em Schüttorf, o DJ Devin Wild produziu o track “Smash Your Horn” para a ocasião

Saúde

Para endereçar preocupações com saúde pública, os diversos países criaram novos protocolos de operação para drive-in’s. Algumas características comuns são:

  • Número limite de pessoas por veículo: dependendo do país e evento, este número varia de 2–5 pessoas;
  • Cada veículo deve ser ocupado por pessoas que moram juntas ou pertencem à mesma família;
  • Manter no mínimo 1.5m de distanciamento entre veículos;
  • Evitar sair do carro. Em alguns casos sair do veículo é completamente proibido;
  • Alimentos e bebidas podem ser adquiridos de forma cashless através de soluções como a ZigPay. Alguns eventos começaram sem venda de alimentos;
Protocolos para Retorno dos Drive-In, Secretaria de Cultura e Economia Criativa

Acima o protocolo que, em conjunto com outros líderes de indústria estamos construindo com o Governo de São Paulo. Tem ideias e sugestões de como tornar este protocolo ainda mais seguro? Este é um work in progress e adoraríamos ouvir suas sugestões. Acreditamos que agora é um momento de enorme aprendizado e colaboração.

Interações Sociais

Enquanto não podemos reviver a emoção de estar lado a lado com milhares de pessoas cantando ou dançando nossas músicas favoritas, devemos lembrar que eventos não dependem necessariamente de aglomerações. Eles dependem de pessoas. Eventos musicais acústicos, estilos como MPB, voz e violão, shows de humor (stand up comedy) e palestras de vários tipos ou shows teatrais por exemplo funcionam mesmo sem massas dançantes.

Drive-ins no passado cresceram em popularidade devido justamente ao seu ar intimista e romântico. A estrutura dos carros, permite que o evento seja amigável e seguro para famílias, que as pessoas fiquem confortavelmente espalhadas em seus veículos, tragam seus animais de estimação, etc… Em entrevista ao NY Times, um participante relembra “as crianças adoravam sentar no teto do carro e mastigar doces sob as estrelas”. São inúmeros os relatos de memórias como essa.

Além do mais, isolamento não significa ausência de interação. Muitas outra formas de conexão irão surgir durante este novo estado social. Por exemplo, por meio do aplicativo de vídeo conferências Zoom, Langer improvisou um jeito de conversar com os fãs que estavam em seus carros, perguntando, por exemplo, como as pessoas estão encarando a pandemia. “Havia definitivamente uma atmosfera única porque as pessoas haviam saído para fazer algo especial juntas”, disse o cantor ao site australiano Triple j.

Mads Langer conversa com fãs através do Zoom

Uma das objeções mais frequentes que ouvi foi: e o flerte? Bom, isso vai sofrer adaptações como um todo pois o significado de contato físico em um mundo pós-pandemia carrega um peso maior. Contato agora é sinônimo de confiança e intimidade. Vamos provavelmente querer conhecer melhor as pessoas com quem decidimos nos relacionar. Vamos ter um número menor de one-night stands e mais relações mais profundas.

Será que não deveria ser assim desde o princípio? Será que este não é o peso devido que devemos dar as nossas interações com as pessoas novas? Flertar não está necessariamente ligado a contato. Pelo contrário, o flerte é tudo aquilo que ocorre antes do contato. Isso assume formas diferentes em conversas, gestos, chats redes sociais ou trocas de telefones em guardanapos.

O mundo vai passar por uma transformação que vai nos ajudar a reavaliar o que realmente é importante nas nossas vidas. Na pesquisa do BCG, How to React to COVID-19 Impacts, a empresa identifica as novas tendências de comportamento que incluem consciência maior do ambiente, sustentabilidade e busca por conexões humanas mais profundas. Nesse sentido, música, arte e manifestações culturais são insubstituíveis. Na semana passada, Dave Grohl — o lendário baterista do Nirvana e atual vocalista do Foo Fighters — escreveu em nota para o The Atlantic: Precisamos desses momentos de conexão porque “somos humanos. Nós precisamos de momentos que nos lembram de que não estamos sozinhos. Que somos compreendidos. Que somos imperfeitos. E, mais importante, que precisamos uns dos outros.” Sem a audiência, escreve Grohl, “minhas músicas seriam apenas som”. Esta busca por conexão faz com que procuremos eventos em novos formatos, vintages ou modernos, remotos ou socialmente distantes, mas sempre repletos de significado.

Behavioral Economist — Stanford University, Founding-CEO @Ingresse, Endeavor Entrepreneur, Forbes 30 Under 30

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